[parte 03] Com Muito Amor, Foi Quando Tudo Começou…

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Um imenso AMOR me enche de gratidão (…) ao iniciar este post.

Um imenso AMOR me envolve completamente e eu transbordo, sublime.

Um imenso AMOR inunda minha vidinha de funcionário público e eu me sinto muito obrigado a agradecer a cada uma dessas mulheres.

Muito obrigado.

Muito obrigado.

Muito obrigado.

 

[parte 03] Com Muito Amor, Foi Quando Tudo Começou…

Do Início

 

Como tudo começou?

Com amor.

Curitiba – PR, Novembro. 2000

Na festa promovida pelos calouros tampouco a música era boa. Junta pelos laços soltos na universidade, a turma estava empenhada em se divertir e isso bastava. A mim encantou o charme daquela alemãzinha, que dançava um passinho para trás de trejeito na mão.

— Como é mesmo o nome dela? grito à orelha do carioca no meio da música.

— Kätlin! ele devolve o grito.

Acerquei-me. Queria experimentar sua dança, oxalá me deslumbrasse um tanto mais.

O movimento era importado, mas as tentativas alegraram. Estava rente à dançarina discreta, sorrindo em reação ao passo exótico.

Os rostos da gente roçavam-se para entender outra língua naquele ambiente poluído, e a atração por ela tornou-me óbvio: “Como se diz ‘beijo’ em alemão!?”

Kuss! ela teve de repetir.

Sem calcular o tamanho da conquista, meu mundinho se ampliaria sutil em definitivo: ganhei um Kuss!

Levou-me a outro salão para conversarmos. Contou que na Alemanha donde vinha as pessoas se conheciam antes para melhor se beijarem. Fantasiei um país com relacionamentos respeitosos e admirei a ideia*.

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* …mas era figura de linguagem. Um ano mais tarde descobriria: ela não havia falado sobre o país natal, mas sobre si mesma. Caso raro de metonímia: nacionalidade pelo indivíduo.

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Nas Nuvens

Numa quinta-feira nublada, antes da aula, caminhamos até o apartamento onde Kätlin estava morando com uma caloura que – surpresa! – era minha primeira ex-namorada, Tíbia. Naquela ocasião a descoberta foi apenas interessante. Afinal, o que havia no globo além de uma linda loirinha que sorria?

A pedido dela, depois da aula fomos a uma churrascaria matar a curiosidade, que testemunhou a quantidade de carne servida ao pequeno brasileiro num rodízio.

Na sexta, diante de instáveis previsões climáticas, preferimos ir a München Fest. Quem trocaria um final de semana na Ilha do Mel por um em Ponta Grossa? O destino, óbvio. Além do mais, estávamos amando. Que diferença poderia existir entre qualquer coisa?

Hospedamo-nos na casa de um amigo ourinhense que estudava, também turismo, na Estadual de Ponta Grossa.

Pagamos meias e assistimos a uma apresentação de dança ‘típica’ alemã – eu rachava o bico dizendo que aquilo era autêntico, ela corava e não achava graça; curtimos um show de pop-rock – ela ouvia atenta, enquanto me abstraía; e mal tomamos metade do primeiro copo de chope – a ficha do segundo copo bem poderia ter virado recordação, na capa de algum CD do Led…

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Romance Enfim

 

Kätlin é quatro anos mais velha, vegetariana de olhos verdes. Eu menino criado em Ourinhos, magro de ruim, terminava o segundo ano de faculdade, enquanto ela fazia intercâmbio.

Seria possível um relacionamento perfeito? Pois foi.

Fiquei mal acostumado desde então, pois SEI QUE É POSSÍVEL. Um amor divino, com direito a despedida entre soluços e lágrimas. Um amor humano, encontro entre destinos.

Havia um espaço – ela voltaria à Alemanha em algumas semanas. Havia um temporal – Curitiba e arredores. Não houve pressa, apesar do mau tempo.

Quando a telepatia, olhares e gestos não eram suficientes, a gente se comunicava com o português que ela estava aprendendo e com o inglês que mal sabia eu. E, muito além disso, fazíamos amor.

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Excursão pra Natal – Mais Um Episódio Extra

Maio. 2000

 

Na estrada a caminho do nordeste, fumei maconha pela primeira vez. Achei que não tivesse dado nada, mas minha boca quis sorrir mais que o normal. Fui-me sentar à frente, senão logo estaria fumando pela segunda, terceira e quarta vez em poucos minutos. Passeei pelo corredor do busão com uma leveza diferente: fumei.

Baseados rolavam muitos. O pessoal do fundo, os ‘malucos’, entrou em conflito ideológico com os ‘caretas’, sentados à frente. No princípio estava em plena transição, aliviando as críticas de ambos os partidos ao meio.

Isso até me estabelecer no fundão, sentado estrategicamente sobre o frigobar – ponto de apoio para a maioria dos baseados acesos – quando-onde assumi o nascimento maconheiro de meu ser.

A viagem seguiu bem de boa. Pousamos na Bahia e em Pernambuco, e chegamos na mesma semana.

O XX Congresso Brasileiro de Turismo foi boicotado pelos ‘malucos’ – inclusive pelo organizador da excursão, recém-apelidado Berman*. O certificado de participação (realizem!) foi entregue no primeiro dia do evento, junto com o crachá que não usamos.

Só nos restava aplicar os conceitos de turismo potiguar: passeios de buggy com emoção, passeio de barco com vômito, tirolesa, espetinho, sol, mar e dunas instantes de alegria.

Lembram-se da Tíbia, que hospedou Kätlin? Pois ela também foi, ainda como namorada, mas em outra excursão por conta de um retardo indecisivo. Nos encontramos por lá três vezes, a terceira foi assim:

Naquela última noite caía uma estranheza enquanto caminhava pro lual, na praia de Ponta Negra. Sentei-me um pouco na beira da orla e a sensação aliviou. Queria mesmo, ou não, chegar? Era considerável a caminhada. Fui indo, indo até quase os pés do morro Careca, na areia onde havia uma grande fogueira acesa com reggae.

A dita cuja apareceu dentre as pessoas  e notei que o alvo da estranheza era eu. “Pode mandar a bomba.” consenti. Demos passos em silêncio e mais adiante ela terminou nosso namoro. Não sei quais foram suas palavras, mas perdi a fala, entrei de tênis no mar salgado de lágrimas e chorei, chorei do Rio Grande do Norte ao Paraná.

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2001 – Uma Odisseia

 

Correspondia-me com Kätlin por e-mail. No início nos escrevíamos amiúde – os intervalos aumentavam a cada desapego. Ninguém sentia muito, vivíamos cada um a sua. E toda vez era sempre bom receber mensagens dela.

No primeiro semestre matriculei-me em um curso de alemão (pré-requisito para aspirantes ao programa de intercâmbio da faculdade). O custo era alto, a instituição impagável: Goethe Institute.

Que absurdo desafiador! Admirava a paciência da professora, ainda que nenhum aluno conseguisse engolir o que acabara de mastigar.De onde ela confiava que seríamos capazes de sprechen Deutsch [falar alemão]? Sentia-me ameaçado pela própria capacidade de aprender algo tão novo.

As aulas eram cedinho. Como não me passasse pela cabeça o porquê, simplesmente me levantava – apesar do frio matinal – e ia, pedalando, ao instituto. Às oito da manhã já estava de volta à quitinete, repartida com o vocalista da primeira banda (quiçá última).

Em novembro voltei a Ponta Grossa. Fiquei novamente na casa do Duarte. Desta vez bebi mais de um copo de chope na München Fest e conheci mais colegas da classe do anfitrião – futuros turismólogos.

Na última hora da noite, sorrateiro, um amor maior: beijei a menina mais linda da festa. Ela já devia, segundo seu pai, estar em casa àquela hora. Trocamos telefones e nos despedimos sem nos dar conta da sintonia vigorante. No dia porvir eu voltaria a Curitiba.

Aquele fim de ano sim foram tantas emoções. Preparativos para a viagem que se aproximava, correria para fechar o ano letivo antes dos demais e uma menina que não me saía da cabeça aos pés.

Ela veio à capital passar uns dias com sua amiga esotérica e fui ao encontro. Minhalma estremecia de contentamento quando nos tocávamos e o baseado dava-nos ainda mais motivos. Pelas calçadas da Nilo Cairo, flutuando como os paralelepípedos na água da chuva, caminhamos até o meu quarto.

— Que dia você nasceu?  perguntei.

— Não, peraí! interrompi. Deixa-me adivinhar… Dia 23!

Ela confirmou. Matutei em semibreve e arrematei:

— Do mês de julho!

— Ah, eu já tinha te contado antes… ela supôs.

— Tinha não. (Acabara de adivinhar o aniversário dela!)

Inebriados, colocamos o colchão do beliche no pedaço de chão que restava, à luz de uma pequena vela perfumada e da claridade urbana que escapava pelas cortinas. Beijos e abraços inadjetíveis. A blusinha tirou-se apaixonadamente, como todo o resto.

Nus, exceto pelo relógio de pulso que ela deixou de lembrete para voltar à casa da amiga, amamo-nos.

Bolei um, minúsculo, usando tudo o que havia de maconha – quase nada. A condição mais propícia a acender um baseado: após o coito. Extraterreno.

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[fim da parte 03]  .

Com amor,


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[próximo capítulo:]*

Ravensburg – Primeiras Intenções Impressões

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Cinquenta mil habitantes e superinfraestrutura de sociedade adulta.

Atravesso as ruas limpas em completa segurança. Provavelmente provoco suspeitas.

(…)

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* O livro continua no próximo post (ainda não disponível ): → parte [04:] Três Meses Sem Sol, Beleza?

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