[parte 04] Três Meses Sem Sol, Beleza? – Iniciação na Alemanha

Tempo de leitura: 7 minutos

‘Três Meses Sem Sol, Beleza?’ é a quarta parte do livro 2002 – relAtos eFeitos de Muita Viagem.

Se você não faz ideia do que estou falando, é porque pegou o bonde andando. Kein problem [sem problema], a viagem está só começando – e você não precisa apresentar o bilhete 😉

Caso queira embarcar bem no começo da viagem, clique em → [parte 00] Prefácio do eBook

 
[parte 04] Iniciação na Alemanha – Três Meses Sem Sol, Beleza?

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Ravensburg – Primeiras Intenções Impressões

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Cinquenta mil habitantes e superinfraestrutura de sociedade adulta.

Para ilustrar tranquilidade, diversas lojas expõem produtos em balcões no meio da calçada (sem funcionário vegetativo de plantão nem filmadora de sorrisos de mentira). Convite sedutor para mentes criminosas – que deixariam de roubar, afeiçoadas com a demonstração de confiança ou desconfiadas de algum truque oculto na inocência.

Atravesso as ruas limpas em completa segurança. Provavelmente provoco suspeitas.

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Coletivo de Circular

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Informado sobre o ponto de ônibus da vizinhança, aventurei-me. Estava a cinquenta metros.

Até conseguir lhe apresentar o dinheiro da passagem, o cobrador, que era o próprio motorista, já se mostrava impaciente – afinal, a pontualidade* do transporte público alemão, não se baseia exatamente na compaixão.

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 os horários afixados em cada Bushaltestelle [parada de ônibus] exemplavam raríssimos atrasos: 6:53, 7:13, 8:05, 19:31… Chegar um minuto depois era esperar pelos próximos.

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O ônibus era impecável, os bancos estofados e as ruas tapetes betuminosos.

Pela quantidade de passageiros, achei que, cidadãos do primeiro mundo, não utilizassem transporte coletivo** – talvez fosse apenas mais um serviço de qualidade a eles oferecido.

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**  até o dia em que peguei a circular ‘lotada’ antes de alvorecer. Lá estavam todos e todos assentados.

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Naquela semana aprendi de cor a solicitar o Schülermonatskarte [bilhete de estudante, válido por um mês]. Arranjado o comprovante de matrícula, fiz sinal pro ônibus parar***. Subi e declamei com sotaque, em verso único, a requisição por desconto estudantil. O condutor já devia estar doente quando lhe alcancei o documento que estava em uma pasta, que estava na mochila, que estava em minhas costas. Digitou algo na maquininha, onde imprimiu o Monatskarte como se bilhete unitário, não fosse pelo conteúdo mensal.

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***  uma semana depois, depois de muitos acenos entusiasmados, descobri que ninguém fazia sinais para-ônibus – eles parariam em todos os pontos onde houvesse alguém, independente do movimento que se fizesse, como seria de se esperar.

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Acesso liberado: tornei-me o mais satisfeito passageiro da estação mais fria de todos os tempos do ano.

[parte 04] Iniciação na Alemanha – Três Meses Sem Sol, Beleza?

Inverno de Verdade.

 

Nublado por três meses. Dá pra imaginar?

O dia cinza era curtíssimo, acordar cedo um mistério – o relógio dizia que não, mas ainda reinava a noite.

Estar ao ar livre nem trazia sensação de liberdade, não houve trégua: o frio fez da estação ditadura. Enquanto rebeldes maldiziam baixinho seu governo tirânico, resignados pedalavam pelas ciclovias, ignorando as condições extremas impostas pelo soberano. Contudo, todos os súditos obedeciam ao toque de recolher (nenhum vassalo fora de casa depois do expediente).

Como forasteiro passível – indiferente ao futuro e às ordens alheio – estava contente com as medidas provisórias daquele regime controlador de massas de ar. Filiei-me ao partido do momento, o único, o do meio (ambiente).

O tempo de exposição tinha de ser curto, o organismo continuava subtropical. Bergschuhe [bota de montanha], minhocão, moleton, abrigo, gorro, cachecol, jaqueta, jeans e luvas – nenhum conselho de mãe seria o bastante.  Ainda assim, maravilhava aquele clima temperado à polar.

 


Compras

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Na primeira visita ao Bennie* comprei apenas cereal matinal – 1 quilo de flocos sem gosto de milho (a interminável embalagem amarela causou arrepios mas foi vencida a leite frio).

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* Bennie Markt [mercado] era dos mais barateiros, bem no centro, no calçadão. O outro era o Maldi. Ambos tinham pouca variedade de produtos e as prateleiras não primavam pela aparência. Meus favoritos.

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Uma avarenta pesquisa garimpou ninharias preciosas. No supermercado de elite compensava o leite, o molho de tomate e a variedade de cervejas – trezenas de marcas nacionais. O restante dos mantimentos eram comprados ora no Maldi, ora no Bennie: arroz, macarrão, pão, ovos, queijo, presunto, banana, limão, atum, geleia, mel, chocolate, vinho… Mais ou menos nessa ordem de prioridade**.

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** devido à alimentação, tive problemas de pele.

Nos espanhóis, segundo Sancho, as espinhas apareciam por causa da masturbação. Segundo Dr. Pietiger, dermatologista que visitei graças ao plano de saúde, era preciso evitar os seguintes alimentos: atum, presunto, chocolate, leite, pão (e massas de farinha refinada em geral), ovos, açúcar e álcool – exatamente o que eu andava comendo.

Desde então, uma nova consciência revolucionou a alimentação individual.

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No Wochenmarkt [feirinha] valia a pena passear, sem gastar, nas manhãs de sábado ocioso.

Em oito meses de Alemanha, quando muito oito vezes fui capaz de sacar o dinheiro da pochete, pagar o que quer que fosse e guardar o troco quase tão ligeiro quanto os nativos. Eles não lerdeiam há gerações.

A propósito, cigarros são vendidos em máquinas automáticas pelas calçadas – há mais daquelas do que telefones públicos. Uma democracia.

 


BABerufsAkademie [academia da profissão]

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É uma instituição estatal de ensino superior profissionalizante. Os alunos alternam entre períodos de estudo e de Praktikum [estágio prático] – três ou seis meses cada.

Predileto era o Internet Café, uma sala com vários computadores e acesso à internet, scanner, impressora e papel à vontade – não havia café. Para quem vinha do Labtur (laboratório de informática do curso de turismo da UFPR) com um ou dois computadores operantes ou concorridos, aquilo era o auge da informática. Eu ia direto.

Além da inclassificável Rauchraum* [sala de fumantes], as outras salas eram de aula: às de Economia, Marketing e Planejamento (e outras matérias cujo conteúdo pouco importava) eu simplesmente comparecia e observava tudo quase neutro**.

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* pequeno cômodo quadradado e branco reservado para se fumar ao abrigo do frio. Um por andar, sem comentários.

** os estudantes-turistas brasileiros montavam sua própria grade disciplinar, isentos da lista de presença, sem exigência de prova.

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É (in)comum: alunos comem, bebem, assoam o nariz e (uau!) participam durante as aulas, que a rigor começam em tom gravíssimo “Guten Morgen, meinen Damen und Herren!.. [Bom dia, senhoras e senhores!..]

Nas classes de espanhol fui o melhor aluno. Mas de todas, de longe, as aulas mais importantes eram de alemão. Tinha todo dia ou quase e a professora, contrária ao clichê dos conterrâneos, era de uma senhora simpatia.

 


Um craque brasileiro na seleção? Huahahaha!!!

BA Sports

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Aos alemães era obrigatório praticar um dos esportes oferecidos: ginástica ou badmington no ginásio anexo; basquete, vôlei, ou Fußball [futebol] no galpão poliesportivo afastado da cidade. Ginástica foram duas vezes pra ter certeza, badmington (peteca-tênis) negou oportunidade, basquete e vôlei não se pronunciaram.

O Fussball era jogado com bola de futebol suíço, em uma quadra de futsal (aquilo quicava sem noção). Íamos eu e Sancho de carona com o Micha(el), um dos muitos estudantes que possuíam carro (esse tinha uma motona, ademais). Animaram-se com a presença de um craque brasileiro na seleção.

A euforia durou mais de alguns minutos, até minha habilidade medíocre acabar com a ilusão estereotípica de um talento nato-nacional. Aproveitei a derrota para perder o par de tênis no vestiário, depois do chuveiro quente.

 

[fim da parte 04]    

[o próximo capítulo promete:]*

Douala

Certa feita o Chris e o Mathias me levaram ao Douala – na opinião deles, que logo também seria a minha, a melhor boate de Ravensburg…

(…)

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* O livro continua no próximo post (ainda não disponível ):

→ parte [05:] Nova Vida Nova — Primavera-Verão

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