[parte 02] Willkommen – [email protected] a Alemanha!

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Veio pra Alemanha SEM passar por Amsterdam?! Volte 01 post imediatamente. (Senão você vai pensar que eu fumei maconha no banheiro do avião…)

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[parte 02] Willkommen[email protected] a Alemanha!

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München Flughafen [aeroporto de Munique]

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Chego à Alemanha exalando maconha, vestindo uma camiseta (GG) tie-dye verde e azul – presente do amigo João.

Molambo, sou encaminhado a uma salinha pela seriedade da polícia alemã. Pedem para tirar das botas o pé esquerdo e o levam junto com a bagagem de mão. Exceto pelo pouco de erva prensada escondido dentro da embalagem de polvilho Granado, não havia nada demais que pudessem encontrar. Por incrível que parecia, não temia ser flagrado. Talvez estivesse ainda sob efeito, mas tinha certeza: “O esconderijo é perfeito.”

Sem sinal de frustração o policial devolve minhas coisas.

Saio empurrando com carrinho a pesadíssima mochila, encantado pelas esteiras rolantes que dão velocidade aos corredores, nos dois sentidos.

Qual seria a primeira dose de providência? Avisar o coordenador – que estou a caminho – do programa de intercâmbio? Quem sou eu? “Wie viel kostet ein Telefonkarte?” [Quanto custa um cartão telefônico?]

cartão telefônico bilionário

Fünfzig Euro [cinquenta euros] replica a senhora detrás do balcão de sua lojinha.

Entendo ‘fünfzehn euro [quinze euros] mas entrego-lhe uma nota maior que a dúvida. Ela me dá o cartão sem nenhum centavo de troco e meu olho esquerdo dói quando me dou conta: foi-se. Nem pediu desculpa a lazarenta.

Telefonei mas não encontrei o senhor Shieber.

“Kätlin!” lembrei da amiga alemã, romance ido. Liguei contente. Ela estava morando próxima a Munique, mas não tão perto que pudesse vir me salvar pessoalmente. Encarregou-se de comunicar ao coordenador minha chegada, enquanto isso eu deveria comprar um lugar no próximo trem para Ravensburg.

Pela primeira vez de todas as vidas, pessoas comprando suas passagens em máquinas! Cheguei perto de uma – havia uma fileira delas, esperando com seus botões. “Deve ser mais fácil que conversar com alguém atrás de um balcão.” cogitei por engano: sequer foi preciso tocá-la para reconhecer que seria impossível sozinho. Máquina imprestável, concluí menoscabado.

Preciso de ajuda, estampou-me a testa. A moça vidente apontou uma pequena fila de viajantes que aguardava sua vez de ser massacrada pelos atendentes alemães. Aproximei a pergunta na ponta da língua, defendendo antes de ser atacado (as informações estavam do outro lado do balcão): “Do you speak English?”. Claro que ele falava inglês, quem não falava era eu!

Comprei uma passagem caríssima, mas já escaldado nem doeu tanto.

“Onde mesmo pego o trem?” perguntei de novo (não entenderia em brasileiro se fosse).

— Use o elevador.

Pois sim, a estação de metrô encontra-se no subsolo do aeroporto internacional. Tudo discriminado no bilhete, o que adiantava lhufas.

Justificou-se o preço da passagem: sem poder peguei um trem-bala.

A viagem seria de gala, com restaurante a bordo.

Pedi água de torneira.

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Willkommen [Bem-vindo]

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Fazia escuro quando desci do trem. O Seu Shieber veio a mim, nos apresentamos e com paciência descabida iniciou um diálogo solo, enquanto se apressava estritamente em direção ao seu carro. Podia compreender a essência do que se me queria dizer, nada além da essência. Tudo o que eu ousava exprimir com pouca firmeza era “Ya” [Sim]. Quando notou que meu alemão esgotara-se antes de deixar a estação, sugeriu que conversássemos em inglês. A caminho do meu novo lar ele ia explicando muitas coisas que talvez tenham sido ouvidas pelo subconsciente.

Fui levado a um quarto no andar inferior da casa dos Schmelzen – minha morada pelos próximos três meses. De frente, vizinho à garagem, havia um cubículo gelado com uma privada. A porta ao lado do cubículo era da lavanderia e ao mesmo tempo do depósito de lixo reciclável (um caixote de latas, outro com potes e garrafas, baterias usadas na caixinha, um saco e meio de papéis e o transparente por encher de plásticos) – só entraria ali para descartar o lixo, pois não me era permitido usar a máquina de lavar.

No final do corredor gelado que levava à escadaria, um banheiro à temperatura ambiente. Tinha água aquecida a gás, pia, o chuveirinho dentro do box e um varal sanfona.

O primeiro lance de escadas dava acesso à porta principal da casa, o segundo levava à residência do Schmelzen filho e sua esposa, e as duas últimas subidas culminavam no aposento do velho casal Schmelzen. Acima do subsolo tudo era aquecido, as paredes pintadas.

O quarto parecia cômodo: havia uma cama, uma janela que se abria por cima, de lado ou normalmente, armário, mesinha, Mikrowelle [micro-ondas] e duas bocas de fogão elétrico.

Ainda na primeira semana me emprestariam um rádio, que continuaria em desuso por justa causa.

OK, eu estava instalado. Shieber marcou dia e hora para mostrar a faculdade – foi a única gota que assimilei de tudo que ele havia derramado até então – e se despediu. Os velhos Schemelter deram as boas vindas, convidaram-me para almoçar na casa deles ao meio-dia seguinte e se recolheram.

Com fome, contente, com sede e cansado dormi.

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Os Schmelzen

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Acordei com o mesmo ar aquecido, o mesmo ar aquecido que impregnaria todas manhãs daquele quarto. Quem dera as janelas se abrissem espontâneas por dois segundos a cada meia hora madrugada afora…

Explorei o local avaliando as riquezas em seus pormenores e iniciei a ocupação do território. Quer dizer, fucei no sistema de aquecimento, no fogão sem botijão e na janela gringa, colei fotos da família no branco da parede e guardei roupas.

A senhora Schmelzen veio avisar que o almoço estava pronto, aprumei-me e subi. O prato servido era uma canja, bastante parecida com a versão conhecida em casa, no Brasil. Eles quase não falavam inglês, como eu alemão. Conversamos o que conseguimos e foi um almoço animado; o primeiro e último. Em agradecimento dei a eles uma garrafa de pinga – segundo conselhos de câmbio internacional, o produto brasileiro seria apreciável presente. Arrependi-me mesmo assim.

O filho deles era um sujeito enorme e foi incumbido de a mim orientar, por saber falar do inglês. Da esposa ranzinza pouco se sabe, supus que era um casal infeliz.

Evoluímos algo em termos de intimidez, a família e eu. Nos víamos basicamente por alguns segundos, quando eles entravam em casa pela garagem. Enquanto guardavam o carro, eu apressava deixar a porta do quarto aberta – a única chance de fazê-los me ver, o corredor gelado a única área em comum. Nem sempre diziam oi, exceto pelo pequeno bem crescido Schmelzen, que fazia questão de cumprimentar-me – sempre e somente assim: “So Halloo…” [algo como: Então… Olá…] uma fala grave e enfadada com longas reticências. Ao menos me notava…

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[Por favor, seja gentil. Eu também tenho sentimentos.]
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De Acordo com o Impacto

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“Haveria outro lugar onde morar?” fui ter com Seu Schieber.

— A esta altura você não tem para onde ir.

Não havia mais vaga alguma. Os estudantes alemães se programam com meses e meses de pré-antecedência. De fato, as ofertas fixadas no mural da faculdade eram para o próximo ano letivo.

— E outra, temos tudo acertado (pago) com os Schmelzen. Você vai ter de ficar por três meses conforme o combinado e Punkt [ponto final].

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[fim da parte 02]

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[próximo capítulo:]*

Do Início

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Como tudo começou?

Com amor.

Curitiba – PR, Novembro. 2000

Na festa promovida pelos calouros tampouco a música era boa. Junta pelos laços soltos na universidade, a turma estava empenhada em se divertir e isso bastava.

(…)

* Continua no próximo post (ainda não disponível ): → parte [03:] Mulheres & Amores

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